Espaço criado para eu compartilhar com amigos, conhecidos, alunos, colegas e público em geral minhas ideias e minhas reflexões.
por um mundo de paz
pensando bem, fabricantes de armas desejam o tempo todo um mundo inseguro. Fabricantes de remédios nos desejam doentes.
quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
A escola entre quatro paredes
ESCOLA ENTRE QUATRO PAREDES PRA QUÊ?
Escola entre quatro paredes. O que é? Quem inventou? Quando? Pra que serve?
Numa sociedade onde as formas de se conseguir o necessário para a satisfação das necessidades vitais de seus componentes, essas formas podem ser aprendidas em poucas lições e em pouco tempo, a aprendizagem é feita no dia a dia, no contato das crianças e jovens com os adultos e pessoas mais velhas daquela sociedade, de maneira natural.
É o caso das sociedades rurais. Quem vive na roça, por exemplo, aprende sobre os afazeres diários no próprio contato com esses afazeres, seguindo as instruções daqueles que já sabem. Vai aprendendo enquanto observa as outras pessoas fazendo e também vai aprendendo na própria lida diária. Isso acontece tanto dentro quanto fora das suas casas, no trato com a terra e com os animais.
Aprende-se a manusear ferramentas e toda tecnologia necessária para todo tipo de trabalho daquele lugar. Aprende-se a observar os sinais da natureza, da terra, dos animais etc.
Essa é a escola de quem vive no campo, nas florestas, na beira dos rios e dos mares, em sítios, chácaras, fazendas, aldeias etc. Nessa escola se aprende de tudo que é preciso para se viver ali.
Existe um tipo de sociedade onde a aprendizagem das formas de se conseguir o necessário para a satisfação das necessidades vitais de seus componentes precisa de muitas lições e muito tempo. É preciso alterar a rotina do dia a dia para se aprender algumas coisas que essa sociedade considera importante com pessoas que se especializam no ensino dessas coisas (professores).
É o caso das sociedades urbanas. Quem vive na cidade, por exemplo, aprende certas coisas seguindo instruções desses que se especializaram em ensinar essas coisas. Nas sociedades urbanas existe muita coisa para se aprender e foram desenvolvidos muitos métodos para se ensinar essas coisas, e entre esses métodos incluem-se a observação, a audição de explicações, o contato com certos dispositivos específicos etc.
Quem mora numa cidade, pequena ou grande, pode aprender muita coisa da mesma maneira como se aprende no campo. Mas muita coisa não. É pra isso que existe a escola entre quatro paredes. Essa escola foi criada para suprir essa necessidade de quem mora num ambiente urbano. A principal necessidade de quem mora nesta selva de pedra é a leitura. Mas não qualquer leitura. Um tipo de leitura que foi criada para se tentar fazer separação entre as pessoas. Um tipo de leitura que foi criada para se tentar criar privilégios, discriminar as pessoas, segregar e, principalmente, para fazer com que umas fossem dominadas por outras.
Quem não quiser a escola entre quatro paredes que vá para o campo, para o meio do mato. É o único lugar onde pode-se dispensar a escola entre quatro paredes. Na cidade, não.
domingo, 2 de dezembro de 2012
terça-feira, 13 de novembro de 2012
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
Renascimento Artístico e cultural europeu
RENASCIMENTO
Renascimento, Renascença ou Renascentismo são os termos usados para identificar o período da História da Europa aproximadamente entre fins do século XIII e meados do século XVII. Os estudiosos, contudo, não chegaram a um consenso sobre essa cronologia, havendo variações consideráveis nas datas conforme o autor. Seja como for, o período foi marcado por transformações em muitas áreas da vida humana, que assinalam o final da Idade Média e o início da Idade Moderna. Apesar destas transformações serem bem evidentes na cultura, sociedade, economia, política e religião, caracterizando a transição do feudalismo para o capitalismo e significando uma ruptura com as estruturas medievais, o termo é mais comumente empregado para descrever seus efeitos nas artes, na filosofia e nas ciências.
Chamou-se "Renascimento" em virtude da redescoberta e revalorização das referências culturais da antiguidade clássica, que nortearam as mudanças deste período em direção a um ideal humanista e naturalista.
O Renascimento cultural manifestou-se primeiro na região italiana da Toscana, tendo como principais centros as cidades de Florença e Siena, de onde se difundiu para o resto da península Itálica e depois para praticamente todos os países da Europa Ocidental, impulsionado pelo desenvolvimento da imprensa por Johannes Gutenberg. A Itália permaneceu sempre como o local onde o movimento apresentou maior expressão, porém manifestações renascentistas de grande importância também ocorreram na Inglaterra, Alemanha, Países Baixos e, menos intensamente, em Portugal e Espanha, e em suas colônias americanas.
O Humanismo pode ser apontado como o principal valor cultivado no Renascimento. Baseia-se em diversos conceitos associados: Neoplatonismo, Antropocentrismo, Hedonismo, Racionalismo, Otimismo e Individualismo. O Humanismo, antes que um corpo filosófico, é um método de aprendizado que faz uso da razão individual e da evidência empírica para chegar às suas conclusões, paralelamente à consulta aos textos originais. O Humanismo afirma a dignidade do homem e o torna o investigador por excelência da natureza. Na perspectiva do Renascimento, isso envolveu a revalorização da cultura clássica antiga e sua filosofia, com uma compreensão fortemente antropocentrista e racionalista do mundo, tendo o homem e seu raciocínio lógico e sua ciência como árbitros da vida manifesta. Seu precursor foi Petrarca, e o conceito se consolidou no século XV principalmente através dos escritos de Marsilio Ficino, Erasmo de Roterdão, Pico della Mirandola e Thomas More.
O brilhante florescimento cultural e científico renascentista deu origem a sentimentos de otimismo, abrindo positivamente o homem para o novo e incentivando seu espírito de pesquisa. O desenvolvimento de uma nova atitude perante a vida deixava para trás a espiritualidade excessiva e via o mundo material com suas belezas naturais e culturais como um local a ser desfrutado, com ênfase na experiência individual e nas possibilidades latentes do homem. Além disso, os experimentos democráticos italianos, o crescente prestígio do artista como um erudito e não como um simples artesão, e um novo conceito de educação que valorizava os talentos individuais de cada um e buscava desenvolver o homem num ser completo e integrado, com a plena expressão de suas faculdades espirituais, morais e físicas, nutriam sentimentos novos de liberdade social e individual.
Por um lado, alguns daqueles homens se viam como herdeiros de uma tradição que havia desaparecido por mil anos, crendo reviver de fato uma grande cultura antiga, e sentindo-se até um pouco como contemporâneos dos romanos. Mas havia outros que viam sua própria época como distinta tanto da Idade Média como da Antiguidade, com um estilo de vida até então inédito sobre a face da Terra, sentimento que era baseado exatamente no óbvio progresso da ciência. A história confirma que nesse período foram inventados diversos instrumentos científicos, e foram descobertas diversas leis naturais e objetos físicos antes desconhecidos; a própria face do planeta se modificou nos mapas depois dos descobrimentos das grandes navegações, levando consigo a física, a matemática, a medicina, a astronomia, a filosofia, a engenharia, a filologia e vários outros ramos do saber a um nível de complexidade, eficiência e exatidão sem precedentes, cada qual contribuindo para um crescimento exponencial do conhecimento total, o que levou a se conceber a história da humanidade como uma expansão contínua e sempre para melhor. Talvez seja esse espírito de confiança na vida e no homem o que mais liga o Renascimento à antiguidade clássica e o que melhor define sua essência e seu legado.
O pensamento medieval tendia a ver o homem como uma criatura vil, uma "massa de podridão, pó e cinza". Mas quando se eleva a voz de Pico della Mirandola no século XV o homem já representava o centro do universo, um ser mutante, essencialmente imortal, autônomo, livre, criativo e poderoso. Esse otimismo se perderia novamente no século XVI, com a reaparição do ceticismo, do pessimismo, da ironia e do pragmatismo em Erasmo, Maquiavel, Rabelais e Montaigne, que veneravam a beleza dos ideais do classicismo mas tristemente constatavam a impossibilidade de sua aplicação prática universal e testemunhavam o deplorável jogo político, a pobreza e opressão das populações e outros problemas sociais e morais do homem real de seu tempo.
Costuma-se dividir o Renascimento em três grandes fases, Trecento, Quattrocento e Cinquecento, correspondentes aos séculos XIV, XV e XVI, com um breve interlúdio entre as duas últimas chamado de Alta Renascença.
Trecento
O Trecento representa a preparação para o Renascimento e é um fenômeno basicamente italiano, mais especificamente da cidade de Florença, polo político, econômico e cultural da região. A economia era dinamizada pela fundação de grandes casas bancárias, pelo surgimento da noção de livre concorrência e pela forte ênfase no comércio, e cada vez mais se estruturava em moldes capitalistas e bastante materialistas, onde a tradição era sacrificada diante do racionalismo, da especulação financeira e do utilitarismo. A Itália nesta época era um mosaico de pequenos países e cidades independentes. O regime republicano com base no racionalismo fora adotado por vários daqueles Estados, e a sociedade via crescer uma classe média emancipada intelectual e financeiramente que se tornaria um dos principais pilares do poder e um dos sustentáculos de um novo mercado de arte e cultura.
Os Médici, banqueiros plebeus, assumiram a liderança da classe mas logo se revestiram da dignidade da nobreza, e um sistema oligárquico voltou a dominar a cena política, muitas vezes se valendo da corrupção para atingir seus fins, mas também iniciando um costume de mecenato das artes que seria fundamental para a evolução do classicismo no século seguinte.
Na religião a mudança foi assinalada pela busca, amparada pela ciência, de explicações racionais para os fenômenos da natureza; por uma nova forma de ver as relações entre Deus e o homem, e pela ideia de que o mundo não deveria ser renegado, mas vivenciado plenamente, e que a salvação poderia ser conquistada também através do serviço público e do embelezamento das cidades e igrejas com obras de arte, além da prática de outras ações virtuosas. Deve-se frisar que mesmo com a crescente influência clássica, que era toda pagã na origem, o cristianismo jamais foi posto em xeque e permaneceu como um pano de fundo ao longo de todo o período, criando-se a síntese original que conhecemos hoje.
Quattrocento
O chamado Quattrocento (século XV) viu o Renascimento atingir sua era dourada. O Humanismo amadurecia e se espalhava pela Europa. Ao mesmo tempo, um novo interesse pela história antiga levou humanistas a vasculharem as bibliotecas da Europa em busca de livros perdidos de autores como Platão, Cícero, Plínio, o Velho, e Vitrúvio. O mesmo interesse fez com que se fundassem grandes bibliotecas na Itália, e se procurasse restaurar o latim, que havia se transformado em um dialeto multiforme, para sua pureza clássica, tornando-o a nova língua franca da Europa. A restauração do latim derivou da necessidade prática de se gerir intelectualmente essa nova biblioteca renascentista. A reconquista da Península Ibérica aos mouros também disponibilizou para os eruditos europeus um grande acervo de textos de Aristóteles, Euclides, Ptolomeu e Plotino, preservados em traduções árabes e desconhecidos na Europa, e de obras muçulmanas de Avicena, Geber e Averróis, contribuindo de modo marcante para um novo florescimento na filosofia, matemática, medicina e outras especialidades científicas. Para acrescentar, o aperfeiçoamento da imprensa por Johannes Gutenberg em meados do século facilitou e barateou imenso a divulgação do conhecimento para um público maior.
Um novo vigor nesse processo foi injetado pelo fim do Império Bizantino em 1453. Muitos intelectuais emigraram para a península Itálica e outras partes da Europa divulgando muitos textos clássicos de filosofia e instruindo os humanistas. Grande proporção do que hoje se conhece de literatura e legislação greco-romanas nos foi preservado por Bizâncio. As novas informações e conhecimentos e a concomitante transformação em todas as áreas da cultura levaram os intelectuais a perceberem que se achavam em meio a uma fase de renovação comparável às fases brilhantes das civilizações antigas, em oposição à Idade Média anterior, que passou a ser considerada uma era de obscuridade e ignorância.
Ao longo do Quattrocento Florença se manteve como o maior centro cultural do Renascimento, atravessando um momento de grande prosperidade econômica e conquistando também a primazia política em toda a região, apesar de Milão e Nápoles serem rivais perigosos e constantes. Foi o século dos Medici, destacando-se principalmente Lorenzo de' Medici, grande mecenas, e o interesse pela arte se difundia para círculos cada vez maiores.
Alta Renascença
A Alta Renascença cronologicamente engloba os anos finais do Quattrocento e as primeiras décadas do Cinquecento, sendo delimitada aproximadamente pelas obras de maturidade de Leonardo da Vinci (a partir de c. 1480) e o Saque de Roma em 1527. Foi a fase de culminação do Renascimento, que se dissipou mal foi atingida, mas seu reconhecimento é importante porque ali se cristalizaram ideais que caracterizam todo o movimento renascentista: o Humanismo, a noção de autonomia da arte, a emancipação do artista de sua condição de artesão e equiparação ao cientista e ao erudito, a busca pela fidelidade à natureza, e o conceito de gênio, tão perfeitamente encarnado em Da Vinci, Rafael e Michelangelo. Se a passagem da Idade Média para a Idade Moderna não estava ainda completa, pelo menos estava assegurada sem retorno possível. Eventos como a descoberta da América e a Reforma Protestante, e técnicas como a imprensa de tipos móveis, transformaram a cultura e a visão de mundo dos europeus, ao mesmo tempo em que a atenção de toda a Europa se voltava para a Itália e seus progressos, com as grandes potências da França, Espanha e Alemanha desejando sua partilha e fazendo dela um campo de batalhas e pilhagens. Com as invasões que se seguiram a arte italiana espalhou sua influência por uma vasta região do continente.
Foi na Alta Renascença que a arte atingiu a perfeição e o equilíbrio classicistas perseguidos durante todo o processo anterior, especialmente no que diz respeito à pintura e à escultura. O idealismo que foi intensamente cultivado na antiguidade clássica encontrava uma atualização.
Apesar desse código de ética, era uma sociedade agitada por mudanças políticas, sociais e religiosas importantes em que a liberdade anterior desapareceu, e o autoritarismo e a dissimulação se ocultavam por trás das normas de boa educação e da disciplina, como se lê em O Príncipe, de Maquiavel, um manual de governo que dizia que "não existem boas leis sem boas armas", não distinguindo poder de autoridade e legitimando o uso da força para controle do cidadão, livro que foi uma referência fundamental do pensamento político renascentista em sua fase final e uma inspiração decisiva para a construção do Estado moderno. Assim, a grande diferença de mentalidade entre o Quattrocento e o Cinquecento é que enquanto naquele a forma é um fim, neste é um começo; enquanto naquele a natureza fornecia os padrões que a arte imitava, neste a sociedade precisará da arte para provar que existem tais padrões. Rafael resumiu os opostos em seu famoso afresco A Escola de Atenas, uma das mais importantes pinturas da Alta Renascença, realizada na primeira década do Cinquecento, que ressuscitou o diálogo filosófico entre Platão e Aristóteles, ou seja, entre o idealismo e o empirismo. Nesse período se observou o paulatino deslocamento do maior centro cultural renascentista de Florença para Roma, com a proteção do papado e o crescente afluxo de artistas de outras partes.
O Cinquecento
O Cinquecento (século XVI) é a derradeira fase da Renascença, quando o movimento se transforma, se expande para outras partes da Europa e Roma sobrepuja definitivamente Florença como centro cultural, especialmente a partir do pontificado de Júlio II. Roma até então não havia produzido grandes artistas renascentistas, e o classicismo havia sido plantado através da presença temporária de artistas de outras partes. Mas com a fixação na cidade de mestres do porte de Rafael, Michelangelo e Bramante formou-se uma escola local. O papado logo percebeu que a arte podia ser uma arma eficiente contra os protestantes, auxiliando em uma evangelização mais ampla e mais sedutora para as grandes massas do povo, e durante a Contra-Reforma foram sistematizados uma nova série de preceitos baseados na teologia contrarreformista, que determinavam em detalhe como o artista deveria criar sua obra de tema religioso. Mas assim, se por um lado a Contra Reforma deu origem a mais encomendas de arte sacra pela Igreja Católica, a antiga liberdade de expressão artística que se verificara em fases anteriores desapareceu, uma liberdade que permitira a Michelangelo decorar seu enorme painel do Juízo Final, pintado no coração do Vaticano, com uma multidão de corpos nus de grande sensualidade, ainda que o campo profano permanecesse pouco afetado pelas novas regras, que eram bastante dogmáticas e moralistas.
As artes no Renascimento
Nas artes o Renascimento se caracterizou, em linhas muito gerais, pela inspiração nos antigos gregos e romanos, e pela concepção de arte como uma imitação da natureza, tendo o homem nesse panorama um lugar privilegiado. Na pintura a maior conquista da busca por esse "naturalismo organizado" foi a recuperação da perspectiva, representando a paisagem, as arquiteturas e o ser humano através de relações essencialmente geométricas e criando uma eficiente impressão de espaço tridimensional; na música foi a consolidação do sistema tonal, possibilitando uma ilustração mais convincente das emoções e do movimento; na arquitetura foi a redução das construções para uma dimensão mais humana, abandonando-se as alturas transcendentais das catedrais góticas; na literatura, a introdução de um personagem que estruturava em torno de si a narrativa e imitava até onde possível a noção de sujeito.
Pintura
Sucintamente, a contribuição maior da pintura do Renascimento foi sua nova maneira de representar a natureza, através de domínio tal sobre a técnica pictórica e a perspectiva de ponto central, que foi capaz de criar uma eficiente ilusão de espaço tridimensional em uma superfície plana. Tal conquista significou um afastamento radical em relação ao sistema medieval de representação, com sua estaticidade, seu espaço sem profundidade e seu sistema de proporções simbólico - onde os personagens maiores tinham maior importância numa escala que ia do homem até Deus - estabelecendo um novo parâmetro cujo fundamento era matemático, no que se pode ver um reflexo da popularização dos princípios filosóficos do racionalismo, antropocentrismo e do humanismo. A linguagem visual formulada pelos pintores renascentistas foi tão bem sucedida que permanece válida até hoje.
O cânone greco-romano de proporções voltava a determinar a construção da figura humana; também voltava o cultivo do Belo tipicamente clássico. A pintura renascentista é em essência linear; o desenho era agora considerado o alicerce de todas as artes visuais e seu domínio, um pré-requisito para todo artista. Para tanto, foi de grande utilidade o estudo das esculturas e relevos da Antiguidade, que deram a base para o desenvolvimento de um grande repertório de temas e de gestos e posturas do corpo. Outro diferencial em relação à arte da Idade Média foi a introdução de maior dinamismo nas cenas e gestos, e a descoberta do sombreado, ou claro-escuro, como recurso plástico e mimético.
Giotto, atuando entre os séculos XIII e XIV, foi o maior pintor da primeira Renascença italiana e o pioneiro dos naturalistas em pintura. Sua obra revolucionária, em contraste com a produção de mestres do gótico tardio como Cimabue e Duccio, causou forte impressão em seus contemporâneos e dominaria toda a pintura italiana do Trecento, por sua lógica, simplicidade, precisão e fidelidade à natureza. O estilo naturalista e expressivo de Giotto, contudo, representava a vanguarda na visualidade desta fase, e se difundiu para Siena, que por um tempo passou à frente de Florença nos avanços artísticos. Dali se estendeu para o norte da Itália.
Depois de Giotto o próximo marco evolutivo foi Masaccio, em cujas obras o homem tem um aspecto nitidamente enobrecido e cuja presença visual é decididamente concreta, com eficiente uso dos efeitos de volume e espaço tridimensional. Também deve-se lembrar a influência renovadora sobre os pintores italianos da técnica da pintura a óleo, que no Quattrocento estava sendo desenvolvida nos Países Baixos e atingira elevado nível de refinamento, possibilitando a criação de imagens muito mais precisas e nítidas e com um sombreado muito mais sutil do que o que era conseguido com o afresco, a encáustica e a têmpera. Mais adiante, na Alta Renascença, com Leonardo da Vinci, a técnica do óleo se refinou e penetrou no terreno do sugestivo, ao mesmo tempo em que aliava fortemente arte e ciência. Com Rafael o sistema classicista de representação visual chegou a um apogeu, e se revelou a doçura, a grandeza solene e a perfeita harmonia. Mas essa fase, de grande equilíbrio formal, não durou muito, logo seria transformada profundamente, dando lugar ao Maneirismo. Aqui Michelangelo, coroando o processo de exaltação do homem, levou-o a uma nova dimensão, a do sobre-humano, abrindo-lhe também as portas do trágico e do patético.
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
Comemorar o IDEB?
Acho uma pena que o Estado de Goiás comemore uma nota 3,6 para o Ensino Médio.
Mas já que a nota melhorou, não podemos deixar de parabenizar a luta dos profissionais da educação do Estado de Goiás (Professores e Funcionários Administrativos) e o esforço dos estudantes para superar os enormes entraves que encontramos no dia a dia das instituições educacionais - precariedade da rede física, falta de profissionais em várias áreas, desmandos da administração pública, ineficiência da liderança sindical, violências mil etc.
Parabéns Professores. Parabéns Administrativos. Parabéns alunos e comunidade.
E ao poder público, fica o alerta: dê ouvidos à voz do povo. Poderíamos melhorar muito mais se a comunidade escolar fosse ouvida.
segunda-feira, 23 de julho de 2012
Metodologia do Ensino de História
MINHA METODOLOGIA
DE ENSINO
Entendendo a História como ciência que encaminha a
escolha entre diversas possibilidades, sua metodologia de ensino
servirá de guia para que o aluno se prepare para esta escolha.
Deverá ela auxiliar o educando a selecionar entre todas aquelas
possibilidades de que podemos lançar mão, de uma maneira mais
científica e racional, para que se alcancem os fins maiores,
primordiais, ou seja, os objetivos, as metas.
O método deve facilitar o difícil caminho do
aprendizado, tornando-o suave, ameno. O aluno deve sentir-se
predisposto a aprender, motivado a conhecer o tempo histórico,
desprendendo-o do tempo cronológico. Valores éticos, como
solidariedade, respeito às diferenças e generosidade facilitam a
construção do coletivo, a equipe. Para construir o trabalho em
equipe é necessário ter em mente que se aprende fazendo,
experimentando, participando e o conteúdo pode representar a
motivação, ao despertar o interesse dos participantes. Método é
prática.
Minha proposta tem como objetivo “colocar a História
no campo da política”. Nessa perspectiva, ela vai ao encontro dos
princípios e dos objetivos do Ensino Médio, expressos na LDB e
relacionado à preparação para a cidadania e ao desenvolvimento da
autonomia intelectual e do pensamento crítico. A problematização
do presente é articulada aos subsídios obtidos com o estudo dos
processos históricos, para compreensão dos conceitos. Isso
possibilita a incorporação e a ressignificação dos saberes
prévios dos alunos.
Elegi os conceitos como
eixos das unidades e os apresento como uma construção
cuja história se pretende examinar. Pensei os eixos conceituais como
moduladores da perspectiva cronológica, os quais cumprem também a
função de instrumentos na estratégia de relacionar temas do
passado com o cotidiano vivido. Os processos econômicos, sociais e
políticos são desnaturalizados, o que possibilita sua interpretação
em perspectiva renovada e crítica. A contextualização e a
interdisciplinaridade constituem eixos dessa abordagem metodológica
e serão desenvolvidas, principalmente, por meio de atividades
ampliadas por sugestões de leituras adicionais, sites e filmes. Os
conteúdos de História do Brasil estão interligados aos de História
Geral e estão articulados aos de outras disciplinas escolares com
propostas de pesquisas que envolvem conhecimentos de Literatura,
Química, Biologia, Geografia etc. Uso uma linguagem adequada ao
nosso alunado, mas incorporo, gradativamente, termos mais difíceis
com a devida explicação.
Proponho atividades criativas
para auxiliar na realização dos objetivos propostos, estimulo a
capacidade de produzir textos que, frequentemente, contribuem para a
interação entre os alunos, possibilitando também o desenvolvimento
de habilidades, como comparação, interpretação, formulação de
hipóteses, análise e síntese.
A principal preocupação do curso diz respeito à
metodologia da História. Discuto
a construção do saber histórico. Busco estabelecer a diferença
entre processo histórico – resultado das relações entre grupos e
sujeitos históricos – e a História – busca de inteligibilidade
para esse processo. Contrasto diferentes interpretações,
evidenciando o caráter sempre parcial e provisório do conhecimento
histórico, inevitavelmente atravessado pela subjetividade do
historiador. Faço uso de fontes escritas
de natureza variada (textos legais, cartas, relatos de viajantes,
material de imprensa, trechos de romances, poesias, letras de música,
grafites), demonstrando ao aluno que o processo histórico pode ser
flagrado a partir de registros os mais diversos possíveis, que nunca
são neutros. Valho me também de variedade
de fotografias, charges, histórias em quadrinhos, pinturas,
gravuras. Concedo grande destaque ao cinema, sugerindo excelentes
filmes, tanto nacionais quanto estrangeiros, observando a necessidade
de submetê-los à crítica histórica, uma vez que são configurados
como um discurso sobre a realidade, passada ou presente, que se
pretende compreender.
O que domina meu método é a perspectiva processual.
Adoto uma organização cronológica, mas não valorizo datas e
nomes, ao contrário, procuro desconstruir mitos e heróis, valorizo
sujeitos coletivos e os embates entre seus interesses e projetos e
adoto o conceito de classe social de matriz marxista.
Valorizo abordagens, temas e objetos como a história
do cotidiano, do consumo, das mulheres, das crianças, concedendo
ênfase especial aos setores desprivilegiados, cuja resistência à
dominação será apresentada nas suas múltiplas possibilidades
expressivas. Revoltas propriamente ditas, como Canudos, Contestado, a
Revolta da Chibata, a Revolta da Vacina, associadas às formas de
resistência nem sempre reconhecidas como tal, como é o caso de
manifestações culturais como festas, músicas etc. Incluo aspectos
simbólicos, relacionados à construção de identidades e projetos
de diferentes grupos, evitando que os processos sejam trabalhados por
um viés exclusivamente econômico ou político-institucional. O
aluno perceberá que as relações sociais se encontram atravessadas
por relações de poder, que extrapolam em muito o campo da política
stricto sensu.
Observará as relações de poder tanto no universo público como no
privado e verá as múltiplas estratégias de controle e coerção.
Destacarei o trabalho com o conceito de cultura.
Concedo espaço maior para a História de regiões e
povos que, em geral, recebem pouca atenção nos livros didáticos,
como hindus, persas, fenícios, chineses, hebreus e, atendendo ao
disposto na legislação, à História da África, reforçando os
novos olhares lançados à História da escravidão e das relações
raciais nas Américas, no passado e presente. Tenho grande
preocupação em fornecer informações e problematizar episódios
recentes, perseguindo objetivo de revelar as conexões entre passado
e presente e apontar permanências e rupturas. Procuro, igualmente,
apresentar ao aluno processos em curso em outros espaços
geográficos, distintos daquele que está sendo tratado no momento,
chamando a atenção para a integração e o descompasso entre
processos históricos nos planos nacional e global.
Optei por tomar a História como instrumento de
politização, fazendo da construção da cidadania
uma questão central. Enfatizo a capacitação do aluno para pensar
criticamente a realidade, posicionar-se e, consequentemente, atuar e
assumir seus direitos e responsabilidades. Na História do Brasil,
defendo o princípio multicultural traduzido na atenção concedida à
História dos afros descendentes e à dos povos indígenas, o que
contribui para apresentá-los como sujeitos históricos autônomos e
para legitimar suas demandas por identidade própria. A intolerância
e o fundamentalismo de cunho religioso são criticados sempre.
Outra importante estratégia metodológica serão as
visitas a museus. Fundamental para que o aluno se familiarize cada
vez mais com ambientes próprios ao trabalho do historiador e para
que ele conscientize-se da necessidade de se preservar o patrimônio
cultural e histórico de uma sociedade.
Músicas em sala de aula serão momentos propícios ao
incremento do repertório artístico-cultural do alunado.
Segue uma lista sucinta das estratégias metodológicas
e dos recursos materiais que serão utilizados em todo o Ensino Médio
nas aulas de História:
- Aulas expositivas dialogadas
- Leitura e interpretação de textos diversos
- Observação e análise de fotografias, mapas, documentos escritos (escrituras, atas, cartas, relatórios, certidões etc.).
- Debates
- Seminários temáticos
- Aulas de campo em museus
quarta-feira, 18 de julho de 2012
A manipulação da verdade
Dom Eugênio Sales era, com todo o respeito, o cardeal da ditadura
Ribamar
Bessa Freire, via Portal
Terra
O
tratamento que a mídia deu à morte do cardeal dom Eugênio Sales,
ocorrida na segunda-feira, dia 9, com direito à pomba branca no
velório, me fez lembrar o filme alemão Uma
cidade sem passado,
de 1990, dirigido por Michael Verhoven. Os dois casos são exemplos
típicos de como o poder manipula as versões sobre a história,
promove o esquecimento de fatos vergonhosos, inventa despudoradamente
novas lembranças e usa a memória, assim construída, como um
instrumento de controle e coerção.
Comecemos
pelo filme, que se baseia em fatos históricos. Na década de 1980, o
Ministério da Educação da Alemanha realiza um concurso de redação
escolar, de âmbito nacional, cujo tema é “Minha cidade natal na
época do 3º Reich”. Milhares de estudantes se inscrevem, entre
eles a jovem Sônia Rosenberger, que busca reconstituir a história
de sua cidade, Pfilzing – como é denominada no filme –,
considerada até então baluarte da resistência antinazista.
Mas
a estudante encontra oposição. As instituições locais de memória
– o arquivo municipal, a biblioteca, a igreja e até mesmo o
jornal Pfilzinger
Morgen –
fecham-lhe suas portas, apresentando desculpas esfarrapadas. Ninguém
quer que uma “judia e comunista” futuque o passado. Sônia,
porém, não desiste. Corre atrás. Busca os documentos orais.
Entrevista pessoas próximas, familiares, vizinhos, que sobreviveram
ao nazismo. As lembranças, contudo, são fragmentadas,
descosturadas, não passam de fiapos sem sentido.
A
jovem pesquisadora procura, então, as autoridades locais, que se
recusam a falar e ainda consideram sua insistência como uma ameaça
à manutenção da memória oficial, que é a garantia da ordem
vigente. Por não ter acesso aos documentos, Sônia perde os prazos
do concurso. Desconfiada, porém, de que debaixo daquele angu tinha
caroço – perdão, de que sob aquele chucrute havia salsicha –
resolve continuar pesquisando por conta própria, mesmo depois de
formada, casada e com filhos, numa batalha desigual que durou alguns
anos.
Hostilizada
pelo poder civil e religioso, Sônia recorre ao Judiciário e entra
com uma ação na qual reivindica o direito à informação. Ganha o
processo e, finalmente, consegue ingressar nos arquivos. Foi aí, no
meio da papelada, que ela descobriu, horrorizada, as razões da
cortina de silêncio: sua cidade, longe de ter sido um bastião da
resistência ao nazismo, havia sediado um campo de concentração.
Lá, os nazistas prenderam, torturaram e mataram muita gente, com a
cumplicidade ou a omissão de moradores, que tentaram, depois, apagar
essa mancha vergonhosa da memória, for jando um passado que nunca
existiu.
Os
documentos registraram inclusive a prisão de um judeu, denunciado na
época por dois padres, que no momento da pesquisa continuavam ainda
vivos, vivíssimos, tentando impedir o acesso de Sônia aos
registros. No entanto, o mais doloroso era que aqueles que, ontem,
haviam sido carrascos, cúmplices da opressão, posavam, hoje, como
heróis da resistência e parceiros da liberdade. Quanto escárnio!
Os safados haviam invertido os papéis. Por isso, ocultavam os
documentos.
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