IMPERIALISMO
E CRISE SOCIOAMBIENTAL
Maurício
Broinizi Pereira
professor de história contemporânea e
coordenador do programa de pós-graduação em história da puc-sp
Os
principais acontecimentos políticos do final do século passado e a
reificação do processo de aceleração das transformações
tecnológicas em curso, entre outras questões, criaram a ilusão da
inexorabilidade e imperiosidade do capitalismo como o único sistema
econômico-social viável para a humanidade. A globalização e o
neoliberalismo, instrumentos do processo de mundialização do
capital, foram alçados à condição de únicas receitas eficazes
para alavancar o crescimento econômico mundial e, em particular, o
dos países enredados nas mazelas da pobreza.
A movimentação de
capital, sem dúvida, foi intensa: mega transações, megafusões,
mega especulações, incorporações avassaladoras de significativas
porções do Leste Europeu e da China no percurso dos investimentos e
da reprodução e acumulação de capital, além da intensificação
do desenvolvimento capitalista em grande parte do Sudeste Asiático.
Enquanto isso, após a recessão dos anos de 1991 a 1993, os Estados
Unidos experimentaram, até 2000, um enorme boom econômico,
recuperando níveis altíssimos de investimento, emprego e
produtividade — e também de especulação na chamada Nova
Economia, como retratavam os índices Nasdaq de ações de empresas
de tecnologia —, colhendo uma porção significativa dos frutos da
ampla abertura econômica que marcou a década passada.
O empenho
da Era Clinton por manter o boom econômico era tamanho que, além de
manter todas as pressões sistêmicas para que grande parte dos
países aprofundassem a política de open door, o presidente assumia
pessoalmente o papel de lobista mundial de grandes projetos e
empreendimentos de interesse de empresas norte-americanas, chegando a
tomar para si, por diversas vezes, a patética missão de tentar
convencer o governo e o povo japonês de que eles deveriam consumir
bem mais e poupar muito menos, dado o reconhecido alto nível de
poupança per capita existente no Japão e o moderado padrão de
consumo de grande parte de sua população.
A receita dos anos de
1990, ainda que bem simplificada, pode ser resumida em
desregulamentação, portas abertas, livre mercado, gigantescas e
super produtivas empresas, consumo, muito consumo, acumulação,
ampla liberdade de aplicações e especulações globalizadas, mais
alguma acumulação etc., com, obviamente, a devida proteção ao
poder político e militar das potências gerentes do sistema,
particularmente o da superpotência imperial norte-americana,
incluindo todo o poder simbólico que ela representa para o mundo
como sociedade opulenta, de consumo abundante e vencedora.
O
império do consumo
É
importante refletir sobre o papel simbólico que os Estados Unidos
representam, principalmente porque o estilo de vida norte-americano,
os seus produtos, valores e promessas, amplamente difundidos pelo
poder de sua indústria cultural e de suas propagandas, veiculadas
intensamente por todas as novas tecnologias de comunicação,
passaram a habitar, na última década, o imaginário de mais alguns
bilhões de pessoas expostas ao processo de mundialização do
capitalismo. É claro que tal processo não começou nos anos de
1990, mas o fim da União Soviética, a globalização e a
consistente transformação capitalista das economias chinesa e
indiana multiplicaram as condições de reprodução da sociedade
pautada no consumismo.
Pelo menos desde os anos de 1940, a
sociedade de consumo de massa passou a ser não só o ideal mas
também a realidade de grande parte dos norte-americanos.
“No
começo da era que se seguiu à Segunda Guerra Mundial, um consultor
de vendas americano chamado Victor Lebow declarou:
´A nossa
economia enormemente produtiva... requer que nós façamos do consumo
o nosso modo de vida, que nós convertamos a compra e o uso de
mercadorias em rituais... que nós busquemos a nossa satisfação
espiritual ou do nosso ego no consumo... nós precisamos de coisas
consumidas, destruídas, gastas, substituídas e descartadas numa
taxa continuamente crescente´.”1
E nada foi tão plenamente
realizado na sociedade norte-americana quanto esta inflexão de
sessenta anos atrás.
Vale a pena refletir sobre alguns efeitos
globais deste estilo de vida e padrão de consumo. Contando, em
média, com um automóvel para cada dois habitantes, ou seja, com uma
frota de aproximadamente 150 milhões de carros, os EUA – que têm
menos de 5% da população mundial – consomem 26% do petróleo, 25%
do carvão e 27% do gás natural do planeta, segundo dados divulgados
em 2004 pelo Worldwatch Institute, uma fundação com trinta anos de
experiência em pesquisa e processamento de dados sobre o “estado
do planeta”. Em consequência, os EUA são responsáveis por cerca
de 27% das emissões globais de CO2. O dióxido de carbono, o qual é
o resultado da queima daqueles combustíveis fósseis, é o principal
poluente da atmosfera e o grande responsável pelo processo de
aquecimento global em curso.
Por outro lado, o governo Bush vem,
sistematicamente, negando-se a reconhecer qualquer evidência de
mudança climática, recusando-se a assinar o protocolo de Kioto,
ainda que este seja uma tímida iniciativa para a redução da
emissão de poluentes. Para um presidente com estreitas ligações
com o complexo industrial militar e com o setor petrolífero
norte-americanos, deve ser difícil aceitar que conste da sua agenda
qualquer preocupação com os efeitos perversos, ainda que sejam
fatais, da “civilização do bem”. Não bastassem seus
comprometimentos evidentes, Bush foi acusado por sessenta cientistas
norte-americanos, entre os quais doze são prêmios Nobel, de
distorcer pesquisas científicas, incluindo as das mudanças
climáticas, segundo seus interesses políticos, assim como distorceu
os relatórios sobre o Iraque para poder fazer a guerra.
Este é
apenas um exemplo das consequências ambientais globais de uma
sociedade de consumo de massa que representa 5% da população do
planeta. No entanto, esta sociedade tornou-se referência para outras
tantas, objeto do desejo de milhões e milhões de consumidores
potenciais, principalmente de economias emergentes que apenas começam
a reproduzir o estilo de vida norte-americano. O exemplo mais
significativo vem da China, onde apenas 20% de sua população começa
a figurar com alto poder de consumo, porcentagem que equivale a toda
a população consumidora norte-americana. Segundo dados que vem
sendo divulgados pela imprensa, os chineses vem incorporando 11 mil
novos carros por dia nas ruas de suas cidades, totalizando
aproximadamente 15 milhões de automóveis particulares.
Esta nova
situação levou o continente asiático à condição de maior
produtor mundial de veículos, onde a China é o mercado que mais
cresce. Se estas tendências forem mantidas, em poucos anos teremos
na China uma frota de automóveis próxima à já existente nos EUA.
Pode-se aplicar esta mesma linha de raciocínio para países como a
Índia, Indonésia, Rússia e Brasil, onde mais da metade de suas
grandes populações ainda não ingressaram na condição de
consumidores de automóveis. No Brasil, a tendência é explícita,
pois a industria automobilística, tanto para exportação quanto
para consumo interno, parece continuar sendo considerada um dos
principais agentes responsáveis por incrementar o crescimento
econômico, dados os contínuos incentivos do governo Lula para o
setor.
Em face da estrutura produtiva em que parte significativa
do sistema está assentado, do conjunto de interesses que giram em
torno da indústria automobilística e petrolífera, e da ideologia
dominante e geradora de desejos de consumo, parece que o eco cínico
em torno de Bush continuará tendo muitos adeptos, sustentado pela
racionalidade/crença ocidental de que a tecnologia trará soluções
para tudo, talvez até para a inexistência de recursos naturais que
possam sustentar o atual paradigma produtivista/consumista. Tal
paradigma continua, ainda que esteja em ampliação para novas áreas
do planeta, realizando a circulação de mercadorias para muito
poucos, já que mais de dois terços da humanidade continua
sobrevivendo entre condições de miséria e pobreza. Concluída mais
de uma década de globalização e neoliberalismo, uma enxurrada de
dados divulgados recentemente por organizações multilaterais do
próprio sistema, tais como ONU, OIT, Banco Mundial e o próprio FMI,
apontam para a insustentabilidade socioeconômica e ética deste
processo, que gerou mais concentração de renda entre os países
ricos e para as classes mais abastadas em todo o planeta,
aprofundando a desigualdade social e o desastre ambiental.
Nota
1
Durning, Alan, in Qualidade de Vida, 1991. Worldwatch Institute. São
Paulo, Globo, 1991, p.205.
Texto
retirado do sítio da Revista PUCVIVA
http://www.apropucsp.org.br/revista/r20_r04.htm